Um pouco demais
Luis Fernando Verissimo
A Marion não resistiu ao Gabriel, apesar dele ser daquele jeito ("Não sou magro", ele diria mais tarde, quando já estavam dormindo juntos, "sou despojado"), porque quando a viu pela primeira vez ele olhou para o alto, abriu os braços e reclamou: "Os violinos! Onde estão os violinos?" e depois explicou que sempre imaginara aquela cena, ele encontrando a mulher da sua vida com um fundo de violinos. "Vá confiar na trilha sonora...", disse depois. E depois, justificando a falha: "Sou uma produção barata, desculpe". A trilha sonora também falhou na primeira vez em que foram para a cama, ele pedindo, no fim, "Agora! A abertura da Suíte número 3 em ré maior de Bach!" e a produção, mais uma vez, decepcionando. E a Marion nem sabendo se estava tendo um orgasmo ou morrendo de rir. Que cara doido! Naquela mesma noite ele disse que não entendia por que ninguém ainda tivera a ideia de fazer uma música chamada Post-coitum Blues e cantou para Marion o seu "blues português" "Mamãe, mamãe, mamãe, todo dia eu tenho os azuis. Sim, mamãe, mamãe, mamãe, todo dia eu tenho os azuis..." e quando propôs que se amassem de novo, mesmo sem trilha sonora, e a Marion disse "O quê?! Paramos não faz nem dez minutos e você quer mais?!" contou que tinha outro por dentro e que quem estaria em ação, desta vez, era o sobressalente. Dava para resistir a um cara desses? Foi o que a Marion perguntou à sua amiga Dani. Não dava, concordou a Dani, tanto que ninguém resistira. Nem ela, nem a Lisa, nem a Lu nem a Magda nem toda a torcida feminina do Flamengo. Todas concordavam que o Gabriel era muito divertido mas chegava a um ponto em que ficava, assim, um pouco... demais. A Marion não concordava não? "Não", disse a Marion. E quando, naquela noite, interrompendo o "Barquinho", que ele tocava batendo com os dedos nas bochechas e variando a abertura da boca, perguntou se era verdade que ele já dormira com a Dani, com a Lisa, com a Lu, com a Magda e com metade das mulheres da cidade, ele enterrou a cabeça entre os seus seios e declarou que não sairia dali antes que ela o perdoasse, e ela perdoou porque ele começou a cantarolar Cartola contra o seu osso esterno. Depois ele anunciou que fariam amor à moda tailandesa e saiu pelo apartamento procurando alguma coisa que servisse como gongo, e de madrugada a levou para o que ele chamava de "a última aventura disponível ao Homem sobre a Terra", comer angu no mercado.
Duas semanas depois a Marion decidiu que o Gabriel era, assim, um pouco... demais. Apesar da ameaça dele de se suicidar aos poucos comendo um Aurelião página por página, esperando que ela mudasse de ideia antes de ele chegar a "esquizofíceas", que não conseguiria engolir, ela o largou.
Mas no outro dia teve que rir quando o viu numa festa, de joelhos e com os braços abertos na frente de uma mulher, enumerando as únicas coisas que ela poderia fazer com um homem ajoelhado na sua frente: "Me decapite, me nomeie cavaleiro do reino ou case comigo!"
Domingo, 24 de junho de 2007.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.